Por Henrique Oliveira
No esporte é comum, nos dias de hoje, ter como comentaristas ou repórteres, ex-atletas. Muitos amantes do futebol acreditam que a fala de um ex-jogador, por exemplo, tem mais peso que um jornalista ou radialista. Porém há quem discorde e não considerem ‘profissionais’ os comentários e os pitacos dos jogadores, considerando-os ‘clubistas’.
Mas o certo é que isso é mais comum que imaginamos. E sim, aqui em Cosmópolis esta fórmula de fazer de um ex-jogador um radialista, ou jornalista, foi mais que assertivo. Pelo menos da pessoa que vou mostrar.
O Beia, como era chamado, foi um amigo que chegou numa boa hora. Fomos apresentados através do empresário, e jornalista, Gelson Daólio, para apresentarmos juntos um programa esportivo. No primeiro momento, não o conhecia. Mas com o passar do tempo pude ver o quão querido era José Aparecido Nallin, ou Beia, para os frequentadores do Cosmopolitano Futebol Clube, ou de qualquer beira de gramado de Cosmópolis.
Sua diabetes o incomodava. A doença era implacável e fazia com que uma de suas pernas fosse amputadas, fazendo com que sua mobilidade fosse reduzida mas o humor e o amor pelo futebol continuavam fortes. Se esforçava para que as terças-feiras fossem de informação sobre o futebol nacional, estadual e também do amador de nossa cidade quando juntos apresentamos um programa de esportes na TV Jaguari.
Ao lado, em uma bancada com o fundo verde de um ‘chroma key’, apresentávamos o nosso programa. Olhando para as câmeras, estava eu ao lado de uma lenda do futebol e do rádio cosmopolense, fazendo o meu primeiro programa. Ainda sem formação jornalística que aconteceria uns 8 anos depois.
Não fomos contemporâneos. Mas conversando com boleiros – muitos deles já aposentados – percebi o quão grande e importante aquele homem, que trabalhava comigo, era para o futebol da cidade. O quanto querido era, não só pelos bons papos sobre a bola, mas pelo que fez nos traços de cal dos campos da Usina Ester, Botafogo, Vila Nova ou Thelmo de Almeida.
José Aparecido Nallin nasceu em 30 de maio de 1955, num Brasil, que no contexto político, era de instabilidade após o suicídio de Getúlio Vargas. Filho do alfaiate Humberto Nallin e da costureira Antônia Nallin, residiu na avenida Ester, onde hoje está instalada a Ecin Contabilidade.
Como muitas crianças da época, estudou na escola Rodrigo Octávio Langaard Menezes. Após, estudou no Gepan e concluiu, seus estudos – no hoje chamado de ensino médio – no Colégio Comercial de Cosmópolis, a famosa ‘Escola de Comércio’. Ali, se formou no curso técnico de Contabilidade.
Ainda no campo da educação, foi universitário e concluiu o curso superior de economia, tornando-se bacharel em Ciências Econômicas.
Mas foi no futebol em que ficou conhecido. Na infância, em 1968, jogou no Caçulas FC. Em 1970, era jogador do segundo quadro (antiga expressão futebolística) do Cosmopolitano Futebol Clube.
Aos 15 anos, Nallin – como também era chamado – foi campeão com a A.A. Paulinense, neste sendo considerado o jogador revelação do torneio. Já em 1972, transitou pelos juvenis do Guarani Futebol Clube e pela Associação Atlética Ponte Preta.
No futebol nacional, era um fanático pelo Corinthians. Tinha como ídolo maior Roberto Rivelino. Mas pudera, o que fez no alvinegro e na Copa de 1970… Na Fórmula 1 era fã incondicional de Ayrton Senna, o qual dividia a paixão pelo Timão.
Pegar uma carona com o Nallin, ou simplesmente conduzir seu carro para os campos da cidade, era sempre ouvindo alguma – ou algumas – músicas de Roberto Carlos. Seria o ‘Rei’ a inspiração para seus longos cabelos na juventude?
E a paixão era tanta, que seu caçula recebeu o nome de Roberto Carlos, ou Betinho para os familiares.
Nallin era apaixonado pela família. Casado com Cleide Nallin, teve dois filhos, além de Betinho, o mais velho, Alex. O primogênito, lhe deu uma das suas alegrias diárias, seu neto.
Mas voltando para dentro de campo, Nallin jogou no lendário time da União Esportiva Funilense quando o alvinegro integrava o futebol profissional do estado de São Paulo. Integrou a equipe em 1979, 1980 e 1981, quando grandes partidas aconteciam no estádio Sérgio Nogueira, na Usina Ester.
Ainda pela Funilense, um pouco mais tarde, foi atleta de futsal, na época ‘futebol de salão’ nos anos de 1987, 1988 e 1989. Quando este, que vos escreve, ainda estava nascendo.
Na UE Funilense, conquistou o acesso à ‘Divisão Especial’ da Federação Paulista de Futsal.
Voltando ao cerne deste texto, o microfone passou a ser o companheiro de Nallin em sua vida. Com uma voz marcante, não tão grave assim, foi um dos pioneiros a fazer transmissões esportivas por meio das ondas do rádio. Por muitos anos comandou o programa ‘Frequência Esportiva’ na rádio Frequência FM em Cosmópolis.
Pelos microfones, transmitiu importantes jogos na cidade de Cosmópolis e também, conquistas memoráveis, como da Final do Campeonato Paulista de Futebol Amador em 1997; campeonato este, organizado pela FPF.
Convidado para integrar a equipe de esportes da Gazeta de Cosmópolis, cheguei sem conhecê-lo. Fui apresentado e nas tardes, que antecediam a gravação do programa, reuníamos para discutir a pauta, falar dos patrocinadores e sempre ‘tirar um sarro’ quando o meu São Paulo era derrotado ou quando o alvinegro paulista também não estava bem nos campeonatos.
E assim foram por mais de um ano. Um jovem ‘foca’ aprendendo o ofício de comentarista esportivo, fazendo matérias nos campos de futebol e sempre se enchendo de orgulho do novo amigo.
Nallin, como eu preferia o chamar, foi um dos que me incentivaram à cursar jornalismo. Sempre dizendo que ‘estudar nunca é demais’ e me ajudando, como podia, com um dinheirinho no final do mês.
Quis o destino que não estivesse em Cosmópolis quando partiu. Viajando à trabalho para Porto Alegre, não consegui me despedir do Beia como ele merecia.
Assim, levo-o para sempre em meu coração: um amigo que o esporte me deu. Uma pessoa íntegra, inteligente, humana, que sempre prezou por difundir o esporte nas ondas do rádio, pelas telas dos computadores ou no bate papo com amigos.
Mas ficou a referência de jornalista esportivo, que sempre que abro os microfones para narrar um jogo, seja ele em Cosmópolis ou na região, vem à mente a figura do Nallin como incentivador e amigo.
Valeu, Beia!
Henrique Oliveira
Jornalista por formação, radialista e narrador esportivo
Imagens: Acervo de Valber Kowalesky

Nallin e eu apresentando o programa ‘Amigos do Esporte’ em 2005

No centro, Nallin narrando futebol em uma final do Campeonato Amador de Futebol em Cosmópolis

Com cabelos longos, Nallin em um dos quadros do Cosmopolitano Futebol Clube (o primeiro agachado da direta para a esquerda)

Nos tempos de Botafogo da Usina Ester

Com o uniforme da Secretaria de Esportes, Nallin ao lado de grandes nomes do futebol cosmopolense

No antigo estádio Thelmo de Almeida – na região central de Cosmópolis
