Todos os anos, centenas de milhares de pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ são expulsas de casa. Muitas vezes explicitamente, outras de maneiras mais silenciosas, mas não menos agressivas, como por meio de hostilidade, chantagem emocional ou dos avisos carregados de ódio velado (“aqui você não vai viver sendo assim”, por exemplo). Esse rompimento familiar precoce, geralmente vivenciado na adolescência, inicia um ciclo doloroso de vulnerabilidade social: sem apoio familiar, sem renda própria e sem estabilidade emocional, jovens LGBTQIAPN+ são empurrados para uma vida de improvisos nada saudáveis. E, embora o Brasil não registre esses números de forma eficiente — muitas vezes por homotransfobia justamente nos setores responsáveis —, basta olhar ao redor, em cidades com grandes populações ou em municípios menores, para perceber como essa expulsão inicial molda trajetórias inteiras.
Quando o lar deixa de ser abrigo, a moradia vira provisória: sofá de amigos, repúblicas instáveis, relacionamentos que acabam funcionando como teto — isso nos cenários menos piores. Essa precarização impacta tudo: do desempenho à evasão escolar, do acesso à saúde à possibilidade de ingressar e permanecer no mercado de trabalho, passando pela formação de vínculos afetivos duradouros. Com poucos serviços públicos especializados disponíveis — quando se tem algum — e quase nenhuma política de proteção, a vulnerabilidade é regra. E vulnerabilidade, no Brasil, costuma abrir caminho para violências: agressões, exploração, dependência financeira abusiva e até enquadramentos injustos e trajetórias empurradas para a marginalização, muitas vezes envolvendo prostituição e uso problemático de substâncias.
Falar de moradia é falar do básico no manual da sobrevivência humana. Mesmo assim, o tema permanece ausente da maior parte dos debates quando o assunto é a especificidade da diversidade sexual e de gênero. Cidades do interior raramente contam com abrigos específicos, centros de acolhimento, programas de aluguel social ou ações de apoio familiar que poderiam impedir que a expulsão acontecesse desde o início.
Enquanto isso, seguimos vendo vidas ceifadas pela falta de acolhimento – não por falta de coragem de quem as vive, mas pelas portas que se fecham cedo demais e não se abrem nunca mais. Pensar políticas públicas LGBTQIAPN+ é, antes de tudo, garantir que ninguém precise escolher entre sua identidade e uma moradia digna. Afinal, nenhuma pessoa deveria perder o lar por ser quem é.
Por: Juh Brilliant (@juh_brilliant) é autor independente dos livros O Menino das Meias, BRILHANTE?! e Amigas Para Sempre…, também pedagogo e fotógrafo.

1 comentário
Obrigada por escrever sobre um tema tão importante. Conheço muitos jovens que foram expulsos de casa ou forçados a mentir sobre quem realmente são para ter onde morar. Infelizmente, há poucos recursos para a comunidade LGBT+ nas áreas rurais do Brasil, principalmente para os jovens. O número de suicídios e de pessoas em situação de rua seria menor se houvesse um grupo de apoio ou um local seguro para a comunidade LGBT+ se reunir, conversar e ser encaminhada aos recursos de que precisa.